Corona vírus: A natureza contra-ataca


Por Michael Roberts

* Esta é uma tradução do texto originalmente divulgado no site Blogging from a marxist economist, em 31/01/2020 (você pode acessar o artigo original aqui).

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Imagem: Pixabay

Enquanto escrevo, o novo e mortal coronavírus (COVID-19), relacionado ao SARS e ao MERS, e aparentemente originado no mercado de animais vivos em Wuhan, China, está começando a se espalhar. De acordo com os dados mais recentes, existem pouco menos de 10.000 casos em todo o mundo, mais ou menos 130 deles fora da China. Até o momento, houve 230 mortes, nenhuma externa à China. Isto representa cerca de 2% de mortalidade, se comprado aos 10% do vírus da SARS em 2009. A taxa de disseminação gira em torno de 1,5, um número que parece estar diminuindo, embora seja muito cedo para afirmar qualquer coisa.

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Fonte: gráfico disponibilizado pelo autor na publicação original, sem indicação da fonte. 

Esta infecção é caracterizada pela transmissão entre humanos e possui um aparente período de incubação de duas semanas antes que a doença de fato se instale. É provável que a infecção continuará a se espalhar pelo mundo.

Como afirmou o epidemiologista Rob Wallace, do Instituto de Estudos Globais da Universidade de Minnesota, na revista digital ecossocialista Climate and Capitalism,

“Surtos são dinâmicos. É verdade que alguns desaparecem, incluindo, talvez, o Covid-19. Para isso, no entanto, há que se estabelecer a pressão evolutiva correta, mas também contar com um pouco de sorte para superar as chances de erradicação espontânea. Por exemplo, podem não existirem hospedeiros suficientes para manter a transmissão ou então outros surtos podem explodir e sucedê-lo. De todo modo, sempre que um surto chega ao cenário mundial, transforma as condições existentes, mesmo que ele venha a ser extirpado. Ele inverte as rotinas diárias de um mundo já em tumulto ou em guerra” [1].

Wallace acrescenta:

“O surto de gripe H1N1 (2009), que preocupou o mundo mais de uma década atrás, provou ser menos virulento do que parecia à primeira vista. Mesmo assim, este vírus penetrou a população global e, silenciosamente, matou pacientes em magnitudes muito além do que fora imaginado. O H1N1 (2009) matou em torno de 579.000 pessoas no primeiro ano, produzindo uma quantidade de complicações quinze vezes maiores do que o inicialmente projetado a partir de testes de laboratório.(…) Com estes mecanismos amplos de filtragem, mesmo a baixa mortalidade por uma enorme quantidade de infecções pode causar um grande número de mortes. Se quatro bilhões de pessoas são infectadas com uma taxa de mortalidade em torno de apenas 2%, oitenta milhões de pessoas são mortas: uma taxa de mortalidade que corresponde quase à metade da pandemia de gripe espanhola de 1918”.

Mas, diferentemente da gripe sazonal, não há sequer “imunidade de grupo”, nem vacina para retardar tais infecções. Na melhor das hipóteses, com uma intensa atividade laboratorial, seriam necessários pelo menos três meses para produzir uma vacina para Covid-19 – e isto supondo que ela funcione. Lembre-se que cientistas criaram com sucesso uma vacina contra a gripe aviária H5N2 somente após o término do surto nos EUA. Tais incógnitas – a fonte exata, a infectividade, a penetração e os possíveis tratamentos – explicam porque epidemiologistas e autoridades de saúde pública estão preocupados com o Covid-19.

Mas qualquer que seja a fonte específica da Covid-19, parece haver uma causa estrutural subjacente: a pressão da lei do valor através da agricultura industrial e a mercantilização dos recursos naturais. A mercantilização da floresta pode ter reduzido o limiar ecossistêmico a tal ponto que nenhuma medida de emergência pode minimizar suficientemente um surto ao ponto de sua eliminação. Por exemplo, em relação ao surto de Ebola no Congo (que também está acontecendo novamente), “o desmatamento e a agricultura intensiva podem eliminar o atrito estocástico da agrossilvicultura tradicional, que normalmente impede o vírus de conseguir condições necessárias para se transmitir.

A culpa pelo surto da Covid-19 é atribuída supostamente a mercados abertos para animais exóticos em Wuhan. Há também quem defenda que ele se deve à agricultura industrial de suínos em toda a China. De qualquer forma,

“mesmo espécies mais selvagens de mero uso de subsistência estão sendo amarradas às cadeias de valor da agricultura, entre elas, avestruzes, porcos-espinhos, crocodilos, morcegos-da-fruta e o civeta de palmeira asiática, cujas bagas parcialmente digeridas agora fornecem o grão de café mais caro do mundo. Algumas espécies selvagens estão chegando aos garfos antes mesmo de serem cientificamente identificadas, incluindo um novo cação de nariz curto, encontrado num mercado de Taiwan”.

Todos estes animais silvestres têm sido tratados cada vez mais como alimentos mercadorias. À medida que a natureza é desfalcada lugar a lugar, espécie por espécie, o que resta torna-se muito mais valioso. Enquanto isso, a expansão de fazendas industriais pode forçar as empresas de alimentos de origem em animais silvestres cada vez mais corporatizadas a adentrar mais fundo na floresta e, assim, aumentar a probabilidade de pegar novo patógeno, ao mesmo tempo que reduz o tipo de complexidade ambiental com a qual a floresta interrompe as cadeias de transmissão.

Recentemente, tem havido muita discussão acadêmica entre marxistas e “ecologistas verdes” sobre a relação dos seres humanos com a natureza. A principal questão é se o capitalismo causou uma “fenda metabólica” entre o homo sapiens e o planeta, ou seja, se foi justamente o sistema capitalista que rompeu o precioso equilíbrio entre as espécies e a natureza, gerando, além de vírus perigosos, o incontrolável aquecimento global e as mudanças climáticas que poderiam destruir a Terra.

O debate gira em torno do quão útil é usar o termo ‘fenda metabólica’, pois sugere que em algum momento anterior ao capitalismo havia algum equilíbrio ou harmonia metabólica entre os seres humanos, por um lado, e ‘natureza’, por outro. Mas a natureza nunca esteve em algum estado de equilíbrio. Ela sempre se transformou e evoluiu, com espécies sendo extintas e emergindo muito antes do homo sapiens (a la Darwin). Os humanos, por sua vez, nunca foram capazes de ditar, sem repercussões, regras ao planeta ou a outras espécies. A “natureza” estabelece o ambiente para os seres humanos e os seres humanos agem sobre a natureza. Para citar Marx (2011, p.25): “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem de livre e espontânea vontade. Não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita; ao contrário, estas circunstâncias lhes foram transmitidas assim como se encontram” [2].

Independentemente disso, uma coisa é certa: a busca interminável do lucro pelo capital e a lei do valor exercem um poder destrutivo não apenas pela exploração do trabalho, mas também pela degradação da natureza. E a natureza reage periodicamente de maneira mortal. O surto de coronavírus pode desaparecer como outros anteriores à ele, mas é muito provável que já existam patógenos desconhecidos ainda mais mortais.

Para o capitalismo, o surto pode ter apenas um efeito limitado como uma queda no mercado de ações ou, talvez, a desaceleração no crescimento e em investimento globais. Por outro lado, poderia ser um gatilho para uma nova crise econômica, porque a economia capitalista mundial desacelerou para quase a “velocidade de estol” [3]. Os EUA estão crescendo apenas 2% ao ano; Europa e Japão apenas 1%; e as principais economias emergentes do Brasil, México, Turquia, Argentina, África do Sul e Rússia estão basicamente estáticas. As enormes economias da Índia e da China também desaceleraram significativamente no ano passado e, se a China sofrer um impacto na economia com a perturbação causada pelo Covid-19, então teremos um ponto de inflexão.

A zona do euro desacelera para 1% ao ano em 2019.

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Fonte: gráfico apresentado pelo autor com a seguinte indicação de fonte “Tradingeconomics.com/EUROSTAT”

NOTAS:

[1] O autor se refere ao texto Notes on a novel coronavirus de Wallace (2020) [N.T].

[2] O autor está citando Karl Marx em O 18 de Brumário de Luís Bonaparte [N.T].

[3]  Velocidade de estol ou perda de sustentação é um termo utilizado na aviação e indica que a aeronave está caindo e não mais voando [N.T].

Bibliografia: 

MARX, Karl. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011. 

WALLACE, Rob. Notes on a novel coronavirus. Climate and Capitalism, 29 jan. 2020. Disponível em: < https://climateandcapitalism.com/2020/01/29/coronavirus-a-deadly-result/ >. Acesso em 05 de abr.2020. 

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