Reprodução Social em crise

Por Kate Bradley

* Esta é uma tradução do texto originalmente divulgado no RS21, em 01/04/2020 (você pode acessar o artigo original aqui).

Imagem: Martijn Baudoin on Unsplash

Nas últimas semanas e meses, diversos países em todo o mundo se viram no meio de uma crise tão inesperada que deixou governos e gestores sem saber como reagir.

Nestes tempos estranhos, o comportamento dos nossos governantes e da população passa a fazer mais sentido quando enquadrado nos termos da “reprodução social”. Reprodução social é o nome dos processos que são realizados para transformar as pessoas em trabalhadores – para garantir que sejam saudáveis, obedientes e “aptas para o trabalho”, como diz o Departamento do Trabalho e Pensões[1]. É também um termo que descreve os processos através dos quais as pessoas sustentam a si próprias e as suas comunidades, mesmo fora de um contexto capitalista – cozinhando, descansando, socializando, e educando as crianças. Muito trabalho de reprodução social pode ser feito para si ou para outras pessoas, seja na forma de trabalho remunerado (por exemplo, trabalho de cuidado, ensino ou enfermagem), seja como trabalho não-remunerado (no lar, como trabalho doméstico).

Normalmente, as crises começam como crises de produção: uma indústria ou setor em colapso que leva a quebras ou perdas de lucratividade, que são depois transferidas para a população sob a forma de cortes nos empregos, reintegrações de posse e ataques aos serviços sociais de reprodução (por exemplo, nas áreas da saúde e da educação). Nestas crises “normais”, como o período de austeridade que se seguiu ao colapso de 2007-8, o sistema prossegue dando o melhor de si para restaurar os lucros, ao mesmo tempo que dispensa funcionários, elimina serviços deficitários, e forja a narrativa pública para apresentar os danos que considera “inevitáveis”.

Entretanto, esta crise começou de forma inversa. A pressa em proteger a nossa saúde coletiva – a nossa capacidade de nos reproduzirmos – contra uma doença que ameaça a vida e se espalha rapidamente, desencadeou uma quebra global no consumo (e.g., alimentação fora de casa, compras não essenciais, viagens internacionais e comércio) e na produção (i.e.,  o fechamento de muitos locais de trabalho, como indústrias e empresas, e a ausência de funcionários naqueles que ainda estão abertos). Em alguns casos, esta quebra tem sido forçada pelos trabalhadores que se opõem às tentativas dos gestores em atrasar a sua própria crise. Um bom exemplo disso é a fábrica da Mercedes Benz na Espanha, que, através de uma greve, obrigou a sua direção a fechar as portas por receio da difusão acelerada do coronavírus em meio a enorme massa de trabalhadores se estes não fossem autorizados a ficar em casa. Nestes tempos, a única narrativa inevitável é a nossa contra os nossos patrões e governos: “é inevitável que percam lucros; agora têm de agir humanamente em relação a nós”. O nosso poder de pôr fim ao que resta do sistema, como naquela fábrica da Espanha, é o nosso poder de impor essa exigência.

A pandemia do coronavírus serviu para realçar, mesmo para aqueles que normalmente não estão inclinados às ideias anticapitalistas, que uma condição essencial para as nossas sociedades continuarem a funcionar, é que o trabalhador cuide de si próprio para chegar à porta do seu local de trabalho – parte oculta da vida que muitas vezes tomamos como apolítica e não relacionada com a nossa experiência enquanto trabalhadores. A redução dos serviços nas empresas de transporte, os taxistas sendo obrigados a ficar em casa, o fechamento das escolas e a redução de sua capacidade de cuidar das crianças, puseram em evidência a centralidade do trabalho “de reprodução social” para o capitalismo de uma forma muito súbita e extrema.

A crise de produção e a manutenção do sistema em curso

Muitas das medidas confusas que os conservadores escolheram adotar nas últimas semanas são mais fáceis de entender ao visualizarmos suas decisões como uma tentativa de proteger a estrutura da economia diante de um enorme colapso que se aproxima. Embora pareça que eles tenham aceitado que o lucro não poderá ser mantido pela maioria dos negócios, eles tentaram sustentar a recuperação econômica para o capital como centro de sua estratégia para enfrentar o COVID-19. Sua oferta de auxílios de £25.000 para empresas de serviços é uma dessas medidas. Talvez seja algo que seria visto como generoso em um momento menos crítico; agora, no entanto, é evidente que essa pode ser a única forma de limitar as consequências a longo prazo para bares e restaurantes que constituem grande parte da economia de consumo.

A segunda oferta monetária do governo recente, é a de empréstimos para todas as empresas começando com um “payment holiday”[2], também é para proteger a lucratividade do sistema a longo prazo. Os empréstimos, afinal, precisam ser pagos, e a dívida tem sido há muito uma maneira de o governo garantir que a riqueza seja transferida de forma ascendente na medida em que é criada. Os indivíduos também estão sendo incentivados a contrair empréstimos para atender às suas necessidades sociais reprodutivas durante períodos de salários reduzidos ou de desemprego. A dívida pode ser vista para o mutuário como uma forma de “emprestar dinheiro do futuro” – mas isso deixará várias pessoas em situação pior por muito mais tempo (e mesmo para o sistema, é uma maneira inerentemente instável e abstrata de manter os padrões de vida atuais). Isso poderia provocar outra crise, caso as dívidas contraídas durante essa pandemia não possam ser pagas em uma lenta economia futura.

 De certa maneira, nós já estamos vendo o efeito que fazer as pessoas contarem com dívidas durante uma crise possui. Após a última recessão, a família média do Reino Unido já possui cerca de £ 13.000 em dívidas não garantidas, além de dívidas hipotecárias em muitos casos. À medida que o coronavírus se agravar, enfrentaremos os inadimplementos em grande escala – e precisaremos seguir lutando firmemente por nossos direitos para impedir um aumento nas reintegrações de posse, despejos e remoções após a retirada do congelamento temporário nesses processos, adotado pelo governo.

“Congelamento” é uma boa metáfora do que o governo está tentando fazer: manter a estrutura capitalista da economia segura durante toda a pandemia, para que possa retornar à sua sórdida normalidade dentro de alguns meses.

Reprodução social, “trabalhadores essenciais” e COVID-19

A terrível insuficiência do NHS[3] para esta crise moldou toda a resposta nacional e governamental ao coronavírus. No primeiro mês de propagação do vírus no Reino Unido, um grande número de pessoas foi contatado pelos médicos da família e instruído a não usar os serviços do NHS enquanto o vírus persistisse, e os testes na comunidade estavam praticamente indisponíveis. Se o NHS estivesse tão preparado para uma epidemia de saúde quanto os militares estão para a guerra, talvez a situação não estivesse tão terrível. No entanto, como as políticas de austeridade conduziram a um NHS desmontado, sempre funcionando quase na sua capacidade, foi preciso haver uma abordagem minimalista para os cuidados com o COVID-19, levando ao método do “achatamento da curva” (tentando manter baixo o número de casos para o serviço de saúde), ao invés de uma tentativa mais proativa de combater o vírus.

O fato de que o governo do Reino Unido tenha mantido as escolas abertas por tantas semanas durante a crise não surpreende, já que tentativas de manter locais de trabalho abertos demandam que as crianças estejam na escola, concebendo-se a escola como um enaltecido lugar de acolhimento para as crianças enquanto passa a pandemia. Isso colocou em risco professores, alunos e as pessoas que convivem com os alunos. A necessidade de manter as escolas abertas pode ser vista como um efeito em cadeia de duas forças: a primeira, o longo esforço do capitalismo para que aqueles que desempenham o trabalho de cuidado no lar também sejam trabalhadores remunerados fora de casa como meio de aumentar a lucratividade (por exemplo, mães que fazem uma “dupla jornada” de trabalho remunerado e trabalho doméstico), e agora as tentativas desesperadas da classe dominante de impedir a falência das empresas através da manutenção dos locais de trabalho abertos por mais tempo do que seria seguro. Esse “movimento de pinça” capitalista leva as pessoas a serem pressionadas a trabalhar durante essa crise e força as escolas a permanecerem abertas para possibilitar que isso aconteça.

É a centralidade das profissões dos “trabalhadores essenciais” durante essa crise que deveria nos mostrar quão poderosos esses trabalhadores podem ser. Certamente, durante crises, esses trabalhadores se tornam ainda mais importantes para o sistema do que são normalmente. Mas as demandas para que trabalhadores que prestam serviços essenciais continuem em seus postos de trabalho, destacam a importância desses setores para manter a produção girando. Nós deveríamos levar essa lição conosco quando voltarmos à normalidade, caso tenhamos que voltar.

Para quem serve a reprodução social: visualizando novas comunidades

Obviamente algumas empresas têm se saído muito bem em tempos de COVID-19. Quando falamos de trabalho socialmente reprodutivo estamos falando de mercadorias que têm valor de uso para a reprodução: comida, papel higiênico, sabonete, produtos de limpeza. Os supermercados estão fervendo em meio à onda de pânico e, como não há controle de preços para proteger os consumidores, alguns itens estão muito mais caros. Isto acontece para que se ganhe dinheiro com o aumento da demanda de curto prazo. No lugar onde moro algumas lojas tentaram lucrar com o aumento dos preços de produtos de limpeza e papel higiênico. Além disso, todos vimos exemplos na mídia de pessoas comprando reservas de desinfetantes para as mãos. Alguns eventos parecidos aconteceram no campo da produção (empresas, por exemplo, comprando um grande número de laptops para garantir que sua equipe pudesse trabalhar de casa), mas foram as mercadorias socialmente reprodutivas que ganharam as manchetes dos jornais. Isto talvez deva nos levar a pensar em termos de valor – e como podemos garantir que os itens essenciais permaneçam disponíveis para todos quando são os capitalistas que controlam o seu valor de mercado.

Um dos benefícios de viver esses tempos estranhos, contudo, é ver o lado bom de como as pessoas reagiram, ver como vizinhos e pessoas que dividem casas (sejam “famílias” ou não) têm se ajudado a sobreviver como nunca antes. É claro que há desvantagens no auto-isolamento, especialmente para quem vive em moradias pequenas e inadequadas ou em relacionamentos abusivos – e precisaremos de formas criativas de ajuda para quem sofre com suas próprias crises pessoais. No entanto, é reconfortante ver atualmente grupos de ajuda mútua surgindo no Facebook ou através de chamados, organizações como a ACORN[4] se voltando para o apoio da comunidade, e conselhos paritários ou seções locais do Partido Trabalhista britânico tentando coordenar o voluntariado.

Não há nada inerentemente anticapitalista na ajuda mútua, uma vez que é esperado que unidades familiares façam isso umas pelas outras desde o início do capitalismo. E esse trabalho livre efetivamente permitiu que o capitalismo crescesse e se desenvolvesse. Como resultado, alguns dos projetos de ajuda mútua serão mais populares e políticos do que outros, e alguns podem ser vistos somente como movimentos de superação, sem inflexão política. Ainda assim, muitas pessoas estão de repente falando sobre os idosos que vivem sozinhos e podem estar sofrendo, mesmo que essas pessoas sempre tenham estado ali e frequentemente precisassem de ajuda, desde antes do coronavírus. As pessoas estão ligando para seus entes queridos, conversando com amigos.

Felizmente, esse período vai mostrar às pessoas a possibilidade de construir coletivamente para além da atomização e da alienação do capitalismo de todo dia – de nos reproduzirmos para alguma coisa diferente da nossa mera rotina.


[1] N.T.: Tradução literal de Department for Work and Pensions, que é um departamento do governo britânico responsável pela política social e de pensões.

[2] N.T.: Recurso que possibilita uma espécie de pausa temporária do pagamento.

[3] N.T.: Sigla que designa o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido.

[4] N.T.: Organização fundada em Bristol em 2014, com o objetivo de unir comunidades para criar condições mais justas de vida. Disponível em: https://acorntheunion.org.uk/about/ Acesso em:  2 de abril de 2020.

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