Para enfrentar a crise capitalista multidimensional, é preciso expropriar os banqueiros e socializar os bancos

Eric Toussaint

*Parte 2 da série: A pandemia do capitalismo, o coronavírus e a crise econômica.

** Esta é uma tradução livre e não autorizada do texto originalmente divulgado no site do CADTM, Comité pour l’abolition des dettes illégitimes, no dia 24 de março de 2020 (você pode acessar o texto original aqui). Circulação para fins estritamente acadêmicos. [This is an unofficial and unauthorized translation, made strictly for academic purposes. Do not circulate further]

Imagem: bantersnaps on Unsplash

As ações dos bancos afundaram em toda parte do mundo desde meados de fevereiro de 2020 (ver os infográficos no corpo do artigo). Se os grandes acionistas se livram primeiro das ações dos bancos, é porque elas estão dentre as mais arriscadas.

Os governos e as autoridades bancárias mentem sistematicamente a respeito do informativo de saúde dos bancos. A grande mídia divulga esse discurso enganoso, porque é dependente, em larga medida, dos bancos que financiam parte da publicidade da qual vive. Alguns banqueiros ou grandes acionistas de bancos são proprietários da grande mídia ou de agências como a Bloomberg, que informam sobre a situação dos mercados financeiros. Os planos de recuperação implementados pelos bancos centrais não buscam atender às necessidades urgentes das populações afetadas pela pandemia do coronavírus. Seja na Europa, nos Estados Unidos ou no Japão, as massivas ajudas financeiras concedidas pelos bancos centrais visam, sobretudo, proteger e salvar os grandes acionistas dos bancos privados e o sistema de dominação capitalista em geral.

É fundamental dizer a verdade sobre os bancos e conseguir convencer cada vez mais pessoas de que é necessário expropriar os grandes acionistas dos bancos, ou seja, os capitalistas proprietários dos bancos. A expropriação deve ser feita sem indenização e deve permitir a criação de um verdadeiro serviço público de poupança, crédito e seguro sob controle do cidadão. É o que o CADTM (em português, Comitê para a Abolição das Dívidas Ilegítimas) chama de socialização completa dos bancos e dos seguros.

Essa medida deve fazer parte de um programa maior que inclui a suspensão do pagamento da dívida, acompanhada do cancelamento de dívidas ilegítimas, sejam elas privadas ou públicas, o fechamento do mercado de valores, a criação de um verdadeiro serviço nacional de saúde pública gratuita, a expropriação não indenizada de empresas farmacêuticas e laboratórios privados de pesquisa e sua transferência para o setor público sob controle do cidadão, a expropriação não indenizada de empresas do setor energético (para poder realizar de maneira planejada a luta contra a crise ecológica) e muitas outras medidas radicais e fundamentais, incluindo medidas de emergência para melhorar imediatamente as condições de vida da maioria da população.

A resposta necessária à pandemia do coronavírus deve ser a oportunidade de promover uma autêntica revolução para mudar radicalmente a sociedade em seu modo de vida, seu modo de propriedade, seu modo de produção, nos valores que inspiram os comportamentos. Essa revolução somente ocorrerá se as vítimas do sistema entrarem em atividade própria, se auto-organizarem e deslocarem ou expulsarem o 1% e seus lacaios dos vários centros de poder para criar um verdadeiro poder democrático. É necessária uma revolução ecológico-socialista autogerenciada e feminista.

Os bancos estão com a saúde muito ruim, contrariamente ao discurso oficial. Cuidado, não nos entendam mal. Os bancos, como instituições, estão com a saúde ruim, mas isso não significa que seus grandes acionistas e dirigentes não obtenham rendimentos significativos. Ao revés, uma das razões pelas quais os bancos estão com problemas de saúde consiste no fato de que os grandes acionistas e os principais dirigentes extraem o máximo de dinheiro sobre as receitas dos bancos.

Os bancos distribuíram, durante todos os últimos anos, dividendos muito grandes para seus acionistas. Seus dirigentes são muito bem pagos. Mas existe uma maneira indireta de ganhar dinheiro para os grandes acionistas: a recompra de ações do banco.

Os bancos recompram suas próprias ações para enriquecer seus grandes acionistas

Uma das técnicas empregadas pelos grandes bancos para aumentar os rendimentos e o patrimônio dos acionistas consiste em recomprar suas ações na bolsa de valores. Nesses últimos anos, eles a utilizaram sistematicamente, notadamente nos Estados Unidos em uma larga escala. Se os preços das ações bancárias atingiram os picos até o início de fevereiro de 2020, é porque os dirigentes dos bancos, com o consentimento dos grandes acionistas, fizeram os bancos recomprarem suas ações. E isso frequentemente se dá graças aos ativos líquidos que são generosamente trazidos a eles pelos bancos centrais a um custo zero ou insignificante. Para quem os bancos compraram suas ações de volta? Para seus grandes acionistas, é claro. Isso faz com que se obtenha um rendimento muito robusto para eles. Expliquemos as coisas de forma simples. Tomemos o exemplo de um grande acionista que comprou um pacote de ações cujo preço unitário é de 70. Se o preço subiu para 100, e o grande acionista vende parte das ações ao seu próprio banco, ele embolsa 100 para cada ação, o que significa, portanto, 30 a mais do que pagou. Em alguns países, as “mais-valias” sobre as ações nem são sequer tributáveis, ​​sob o pretexto de que é necessário incentivar as bolsas de valores!

Uma das técnicas empregadas pelos grandes bancos para aumentar os rendimentos e o patrimônio dos acionistas consiste em recomprar suas ações na bolsa de valores.

É ainda mais interessante para os grandes acionistas revenderem as ações para seu(s) banco(s) – coloco no plural porque os grandes acionistas são acionistas de vários bancos – do que receber dividendos que são suscetíveis de serem mais tributados do que uma mais-valia sobre as ações. Digamos que os grandes acionistas combinem os dois rendimentos: revendem uma parte de suas ações obtendo uma mais-valia e, para as outras ações, recebem seus dividendos.

O anúncio pela empresa de que ela recomprará suas próprias ações geralmente é bem recebido pelos acionistas, porque as empresas costumam oferecer um “prêmio”, ou seja, um preço de recompra mais alto que o último preço de encerramento da ação pretendida. Isto incentiva os acionistas a manterem seus títulos e a trazê-los para a oferta de compra, o que tem a vantagem adicional de fazer (novamente) saltar a cotação dos títulos na bolsa.

A recompra das próprias ações pelo banco (e, portanto, a eliminação) oferece outra vantagem: o volume de ações em circulação diminui e, de repente, a relação entre a quantidade de dividendos distribuídos e o volume de ações em circulação aumenta. A “rentabilidade” ou o aumento de rendimento cria artificialmente uma demanda pelas ações ainda em circulação que são vendidas mais caras na bolsa de valores e então a cotação do banco aumenta.

Como escreveu o Financial Times, expert na matéria: “As recompras de ações são neutras para o valor de uma empresa, em teoria, porque cada dólar que volta aos acionistas é um dólar a menos em seu balanço. Contudo, uma redução do número de ações em circulação aumenta o lucro por ação – o que geralmente pode elevar os preços – além de aumentar a remuneração dos executivos”[1].

É necessário notar que entre o início de 2009 e o final de setembro de 2019, os grandes bancos dos Estados Unidos gastaram 863 bilhões de dólares em recompras de suas próprias ações[2]. Depois do setor dominado por Google, Apple, Amazon, Facebook, que procedeu às recompras de ações por um montante de 1,394 trilhões de dólares, o setor bancário dos Estados Unidos é quem recomprou o maior volume de ações, muito mais que o setor industrial ou que os setores de energia e de bens primários. O total de recompras em todas as indústrias dos Estados Unidos atingiu mais de 5,25 trilhões de dólares durante o mesmo período. Este é um dos principais fatores da bolha do mercado de ações. O mesmo fenômeno pode ser observado em outros continentes com os mesmos efeitos.

Gráfico 1: os bancos recompram suas próprias ações

Fonte: : https://www.yardeni.com/pub/buybackdiv.pdf , 23 mar 2020, p.11
Evolução entre o 1º trimestre de 2007 e o 3º trimestre de 2019. Recompras no curso do 3º trimestre de 2019: 47,5 bilhões de dólares.


Gráfico 2: Montantes acumulados de recompras de ações pelos bancos entre o 1º trimestre de 2007 e o 3º trimestre de 2019

Fonte: https://www.yardeni.com/pub/buybackdiv.pdf , 23 mar 2020, p.12
Total : 863,3 bilhões de dólares

Embora as bolsas de valores devessem ser o lugar em que os empresários capitalistas aumentam capital vendendo suas ações para desenvolver seus negócios, elas operam na realidade como templos de especulação onde as empresas vêm para recomprar suas próprias ações a fim de favorecer seus grandes acionistas. Essa é uma das razões pelas quais os mercados de ações deveriam ser fechados. Eles se baseiam em movimentos puramente artificiais de capital fictício[3]. Mas a ilusão pode durar anos. E é isso que estava acontecendo.

Mas isso não podia durar para sempre. Nos últimos dois ou três anos, numerosos economistas heterodoxos e várias organizações internacionais anunciaram o fim próximo do ciclo otimista do mercado financeiro, pois era evidente que uma bolha especulativa tinha se desenvolvido e que iria explodir. A partir do meio de fevereiro de 2020, devido à extensão da epidemia do coronavírus e seus efeitos na locomotiva chinesa, os grandes acionistas consideraram que a festa tinha acabado e decidiram bruscamente vender em enorme quantidade lotes de ações. Eles foram os primeiros a vender e a embolsar um máximo de lucros. Numerosos fundos de pensão e numerosos fundos de investimentos seguiram o exemplo e deram ordens de vender, gerando queda brutal no preço das ações.

Com a crise de fevereiro-março de 2020, os bancos norte-americanos anunciaram em meados de março que deixariam de comprar suas próprias ações porque, segundo o Financial Times, novas recompras provavelmente não soariam bem na opinião pública.

No curso do mês de março de 2020, os discursos tranquilizadores dos líderes dos grandes bancos centrais produziram o efeito inverso. Os detentores de ações dos bancos pensavam que se os bancos centrais anunciavam medidas tão imponentes (voltarei a este assunto em artigo futuro desta série) era porque o momento era realmente grave e que não se deveria pensar duas vezes antes de vender o que pudesse ser vendido antes que os preços baixassem ainda mais.  Todo o aumento de valor das ações dos bancos nos últimos anos foi perdido. No entanto, os grandes acionistas “realizaram seus lucros”, como se diz no jargão dos comentaristas da bolsa. Eles revenderam pacotes de ações, embolsando a diferença entre o preço de compra pago no início da bolha do mercado e o início do movimento de vendas durante a temporada de vendas e liquidações. Eles encontraram compradores nos fundos de investimento e hedge funds que procuravam preços baixos. Os grandes acionistas não venderam tudo: agora que o preço das ações está muito baixo, eles mantêm o que não venderam, o que lhes permite manter um peso decisivo no banco (com 4 a 6% ações, um grande acionista pode controlar uma empresa, seja um banco ou qualquer outro tipo de empresa). Esses grandes acionistas esperam que governos e bancos centrais lancem algum “plano de ajuda” aumente os preços nos próximos meses. Aqui, deve-se notar que é muito cedo para prever a duração dessa crise e o tempo que levará para as bolsas subirem. Pode durar alguns meses, pois pode durar vários anos. Além da duração tanto da pandemia como da crise no setor produtivo, os eventos sociais e políticos também podem influenciar fortemente o calendário.

No futuro imediato, os bancos vão declarar prejuízos e não pagarão impostos. Eles vão receber uma profusão de novos presentes de governos e bancos centrais. Cuidado, é preciso diferenciar entre os grandes acionistas dos bancos que obtêm lucros e os bancos em si, que vêem seu capital derreter, tombar o preço de suas ações, anunciar perdas e, quem sabe, para alguns deles a falência. Os grandes acionistas vêem o banco como uma fonte ótima de renda, ainda que à beira da falência. Eles estão convencidos de que o banco ou bancos dos quais são acionistas estão ou são muito grandes para realmente falir. Eles sabem que as autoridades públicas, lideradas por seus amigos no governo e no banco central, resgatarão os bancos com o dinheiro dos contribuintes. Eles são os primeiros, no caso de cair o preço das ações, a se desembaraçar de uma boa parte dessas, mas mantendo uma quantidade tal que eles conseguirão sempre controlar a situação. Os grandes acionistas estão protegidos por lei, que considera a responsabilidade do acionista limitada às ações que ele possui na empresa. Mesmo que os grandes acionistas sejam responsáveis ​​por perdas enormes, a única coisa que eles correm risco de perder é a aposta. No entanto, nem todos eles têm seus ovos em uma mesma cesta. São acionistas de várias empresas, de diferentes setores, de modo que sua riqueza também é diversificada. Grande parte de seu patrimônio é composto de ativos mais sólidos que as ações: imóveis, bens artísticos de alto valor, ouro, iates, aviões …

Como expliquei em artigos anteriores[4], é preciso acrescentar que os grandes acionistas (e outros especuladores) jogam uma montanha-russa quando as bolsas de valores estão muito turbulentas. No dia em que o mercado está em baixa, no início da sessão, os acionistas vendem pacotes de ações, e durante o dia ou na manhã seguinte, caso o mercado volte à alta, eles são os primeiros a comprar ações de volta quando o preço está no seu nível mais baixo. É assim que vemos nos dias em que os preços das ações caem, seguidos de dias em que eles se recuperam de maneira efêmera. Mas, neste momento, a tendência é muito claramente descendente, razão pela qual os grandes acionistas desfazem-se de grandes pacotes de ações.

Evolução do preço das ações dos bancos

Na Europa

Entre 17 de Fevereiro e 12 de Março de 2020, os preços das ações dos bancos europeus literalmente mergulharam, com a maioria deles a perder entre 30 e 45%. No caso da Natixis (que foi resgatada da falência durante a crise anterior), a queda foi de 54%.

Durante o mesmo período, as ações dos principais bancos escandinavos também caíram drasticamente. Nordea (Finlândia) mergulhou 38%, SEB (Suécia) caiu 32%, Handelsbanken (Suécia) caiu 28%, Swedbank (Suécia) perdeu 24%, Danske Bank (Dinamarca) perdeu 36%.

Nas Américas

As ações dos 8 maiores bancos americanos caíram fortemente. Os bancos canadenses também caíram, mas menos do que os seus vizinhos. As ações dos principais bancos no México, Colômbia, Brasil, Chile e Argentina também caíram, o que continuou posteriormente.

Na Ásia

Todos os grandes bancos dos principais países asiáticos também caíram na bolsa de valores. A queda dos bancos chineses é, consideravelmente, mais limitada do que a do resto do mundo, cuidado, porém, esta queda já tinha começado em janeiro. Os bancos japoneses foram os que mais caíram.

Na África

As ações dos bancos das 4 maiores economias da África também caíram. Os bancos da Nigéria foram os mais afetados pela queda dos preços das ações.

Classificação dos bancos segundo a queda do  preço de suas ações entre 17 de Fevereiro e 13 de Março de 2020

Podemos ver, muito claramente, que as ações dos bancos europeus foram as que mais caíram entre 17 de Fevereiro e 13 de Março de 2020.

Na próxima parte desta série, eu prosseguirei com a análise da situação dos bancos. Há ainda muito material a ser desenvolvido a este respeito. Depois, abordarei outros aspectos da crise econômica e financeira internacional: a queda dos preços do petróleo; o início da explosão da bolha no mercado de títulos; o mergulho dos preços dos títulos de dívida privada e a subida brutal dos rendimentos e dos prêmios de risco; a boa saúde dos títulos da dívida pública – os seus preços estão a subir. Os governos das economias dominantes estão se financiando com taxas de juros negativas, mas estão acumulando dívidas ilegítimas. Eu mencionarei, igualmente, o mergulho das companhias aéreas e da indústria aeronáutica. Irei abordar as respostas dos bancos centrais e dos governos.

Dada a rápida evolução da crise, o plano desta série está mudando. Em cada parte essencial, apresentarei, em seguida, propostas de medidas necessárias.

Confira o artigo original aqui.


NOTAS:

[1] “Stock buybacks are neutral, in theory, for a company’s value as every dollar handed back to shareholders is a dollar less on its balance sheet. However, a reduction in the number of the shares outstanding increases earnings per share — which can often lift prices — while also boosting pay for managers.” Ver Financial Times, “Bank-led freeze on stock buybacks could spread across US Market”. Disponível em: https://www.ft.com/content/b1fa1688-68f6-11ea-a3c9-1fe6fedcca75. Acesso em: 20 mar 2020

[2]  Ver S&P 500 Buybacks & Dividends, disponível em: https://www.yardeni.com/pub/buybackdiv.pdf. Gráfico/Figura 15 “Financials” Acesso em: 23 mar 2020).

[3] “O capital fictício é uma forma de capital (os títulos da dívida pública, as ações, os créditos) que circula, enquanto os rendimentos da produção a que dá direito são apenas promessas, cujo resultado é, por definição, incerto”. Entrevista com Cédric Durand, realizada por Florian Gulli, “O capital fictítico, Cédric Durand”, La Revue do du Projet: http://projet.pcf.fr/70923

[4] Conferir em: https://cadtm.org/Non-le-coronavirus-n-est-pas-le-responsable-de-la-chute-des-cours-boursiers

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