A pandemia do capitalismo, o coronavírus e a crise econômica

Eric Toussaint

* Esta é uma tradução livre e não autorizada do texto originalmente divulgado no site do CADTM, Comité pour l’abolition des dettes illégitimes, no dia 18 de março de 2020 (você pode acessar o texto original aqui). Circulação para fins estritamente acadêmicos. [This is an unofficial and unauthorized translation, made strictly for academic purposes. Do not circulate further]

** Este artigo é a Parte 1 de uma série lançada por Eric Toussaint. Leia a Parte 2 aqui.

Imagem: CC – Pixabay

Uma crise de saúde pública 

A pandemia do coronavírus constitui um problema gravíssimo de saúde pública, e os sofrimentos humanos que a difusão do vírus vai  provocar serão enormes. Se alcançar massivamente os países do Sul Global, onde o sistema de saúde pública, já falho ou muito frágil, foi terrivelmente minado por 40 anos de políticas neoliberais, as mortes serão extremamente numerosas. Sem esquecer a situação dramática da população iraniana, vítima do bloqueio decretado por Washington, bloqueio que inclui a introdução de medicamentos e equipamentos médicos. 

Ao utilizar o pretexto da necessária austeridade orçamentária para  reembolsar a dívida pública, os governos e as grandes instituições multilaterais como o Banco Mundial, o FMI e os bancos regionais, entre eles, o Banco Africano de Desenvolvimento, generalizaram políticas que deterioraram os sistemas de saúde pública: supressão de postos de trabalho;  precarização dos contratos trabalhistas; eliminação dos leitos hospitalares; fechamento de postos de saúde comunitários; aumento dos custos da saúde tanto no nível dos cuidados quanto dos medicamentos; subinvestimentos em infraestrutura e equipamentos; privatização de diferentes setores da saúde; corte em investimentos públicos para pesquisas e desenvolvimento de tratamentos em benefício dos interesses dos grandes grupos farmacêuticos privados etc.

Isto vale para América Latina e Caribe, África, Ásia e para os países do antigo bloco do Leste (Rússia e outras ex-repúblicas da extinta URSS, Europa central e oriental). 

Mas, obviamente, também diz respeito a países como Itália, França, Grécia, entre outros membros da União Europa. E o que vai acontecer nos Estados Unidos, onde, como denuncia Bernie Sanders, 89 milhões de pessoas não têm real cobertura de saúde?

Os grandes meios de comunicação e os governos enfatizam as diferenças das taxas de mortalidade em função da idade, mas têm o cuidado de não chamar atenção sobre as desigualdades de classe e sobre como a mortalidade que deriva da pandemia do coronavírus vai afetar os seres humanos segundo suas rendas e patrimônio e, portanto, conforme a classe social a que pertencem. Colocar-se em quarentena ou acessar um serviço de cuidados intensivos quando se tem 70 anos e se é pobre não é a mesma coisa para quem é rico.

Haverá também a divisão entre os países que, apesar das políticas neoliberais, mantiveram minimamente seus sistemas de saúde pública e aqueles que os privatizaram ou cortaram radicalmente os investimentos. 

A crise financeira e do mercado de ações  

Enquanto a grande mídia e os governos afirmam, constantemente, que a crise do mercado de ações é provocada pela pandemia do coronavírus, eu insisti que todos os elementos de uma nova crise financeira estavam reunidos desde muitos anos e que o coronavírus constituía sua centelha ou detonador, não sua causa [1]. Embora alguns tenham sustentado que minha postura era uma tentativa de negar a importância do Coronavírus, mantenho minha afirmação. A quantidade de material inflamável na esfera financeira alcançou a saturação há vários anos e se sabia que uma faísca poderia e iria provocar a explosão: não sabíamos quando ela ocorreria e o que a causaria, mas sabíamos que, com certeza, viria. Era preciso agir para evitá-la, mas isso não foi feito. Numerosos autores da esquerda radical anunciaram esta crise, entre eles, Michael Roberts [2], François Chesnais [3] ou Michel Husson [4]. Desde 2017, tenho publicado regularmente artigos sobre o assunto [5]. Com o Comitê para a Abolição das Dívidas Ilegítimas (CADTM) e outras organizações, temos afirmado que é necessário romper radicalmente com o capitalismo.

O primeiro grande choque no mercado de ações ocorreu em dezembro de 2018 em Wall Street e, sob pressão de um punhado de grandes bancos privados e da administração Donald Trump, o Sistema de Reserva Federal dos EUA (Fed) começou a cortar novamente as taxas e foi aplaudido pelas poucas grandes empresas privadas que dominam os mercados financeiros. O frenesi da subida dos preços das ações voltou a crescer, e as grandes corporações continuaram a recomprar suas próprias ações na bolsa para ampliar o fenômeno. Aproveitando a queda das taxas, as grandes empresas privadas aumentaram sua dívida e os grandes fundos de investimento multiplicaram as aquisições de todo o tipo de empresas, incluindo empresas industriais, recorrendo largamente ao endividamento [6]. 

Em seguida, novamente em Wall Street, a partir de setembro de 2019, houve uma crise de escassez de liquidez enorme em um mercado financeiro que, no entanto, estava saturado de liquidez. Crise de liquidez em contexto de profusão de liquidez é tão somente um paradoxo aparente, como expliquei alhures [7]. Tratava-se, isto sim, de uma crise séria e o Fed interveio massivamente ao injetar centenas de bilhões de dólares para tentar evitar que os mercados entrassem em colapso. Ao mesmo tempo, o Fed manteve em seu balanço mais de U$ 1,3 trilhões em produtos estruturados tóxicos que tinha comprado dos bancos em 2008 e 2009, porque estava convencido de que se os colocasse à venda no mercado secundário da dívida, seus preços desabariam, causaundo uma grande crise financeira e a falências dos bancos. O Fed não fez isso para defender o interesse geral, mas sim para defender os interesses do grande capital, isto é, o “1%” mais rico da sociedade. O Banco Central Europeu (BCE) e os outros grandes bancos centrais (Reino Unido, Japão, Suíça, China) têm aplicado grosso modo o mesmo tipo de política e têm uma responsabilidade muito importante na acumulação de materiais inflamáveis na esfera financeira [8]. 

Com isso, estamos assistindo a um enorme aumento na criação de capital fictício e, em cada crise financeira, uma grande parte desse capital fictício precisa “desaparecer”, porque faz parte do funcionamento normal do sistema capitalista. O capital fictício é uma forma do capital, que se desenvolve exclusivamente na esfera financeira, sem qualquer ligação real com a produção. É fictício no sentido de que não se baseia diretamente na produção material e na exploração direta do trabalho humano e da natureza. Como afirma o economista francês Jean-Marie Harribey, membro da ATTAC: 

As bolhas explodem quando a diferença entre o valor realizado e o valor prometido se torna demasiado grande e quando alguns especuladores compreendem que as promessas de liquidação lucrativa não poderão ser honradas para todos, em outros termos, quando os ganhos financeiros não poderão jamais ser realizados por falta de mais-valia suficiente na produção.” [9] 

Reitero que a pandemia do coronavírus não é a causa real e profunda da crise do mercado de ações que eclodiu durante a última semana de fevereiro de 2020 e ainda está em curso. Esta pandemia é o detonador, a centelha. Eventos graves de outra natureza poderiam ter gerado a mesma faísca explosiva. Por exemplo, uma guerra quente e declarada entre Washington e o Irã ou uma intervenção militar direta dos EUA na Venezuela. A crise no mercado de ações que teria se seguido seria atribuída à guerra e às suas consequências. Da mesma forma, eu também teria afirmado que a respectiva guerra, cujas consequências, sem dúvida, seriam terríveis, poderia ser a centelha, mas não a causa profunda. Portanto, mesmo que exista uma ligação inegável entre os dois fenômenos (a crise do mercado de ações e a pandemia do coronavírus), isso não significa que não é preciso denunciar as explicações simplistas e manipuladoras segundo as quais a culpa da crise atual é o coronavírus. Esta explicação mistificadora é um engodo destinado a desviar a atenção da opinião pública quanto ao papel fundamental desempenhado pelas políticas executadas a favor do grande capital em escala planetária e da cumplicidade dos governos atuais com tais políticas.

A crise no setor da produção precedeu a pandemia do coronavírus

Isso não é tudo. Não só a crise financeira estava latente há vários anos (como já era evidenciado pela alta contínua dos preços dos ativos financeiros), mas também uma crise no setor produtivo tinha igualmente começado em Dezembro de 2019, muito antes da propagação do vírus Covid-19. Antes, portanto, do fechamento de indústrias na China em Janeiro de 2020 e antes da crise das bolsas de valores no final de Fevereiro.

Assistiu-se, durante 2019, o início de uma crise de superprodução de mercadorias, particularmente no setor automotivo, com uma queda maciça nas vendas de veículos na China, Índia, Alemanha, Grã-Bretanha e outros países. Isto levou a uma redução significativa na produção de automóveis. No mesmo sentido, havia superprodução na fabricação de equipamentos e de máquinas-ferramentas na Alemanha, um dos 3 maiores produtores do mundo neste setor. Houve redução muito acentuada no crescimento industrial chinês, o que teve  graves consequências para os países que exportam equipamentos, automóveis e matérias primas para a China. No segundo semestre de 2019, uma recessão explodiu no setor da produção industrial na Alemanha, Itália, Japão, África do Sul, Argentina e em vários setores industriais dos EUA.

A evolução da crise financeira e econômica desde 03 de Março de 2020

Ressalte-se que, durante a última semana de Fevereiro de 2020, as principais bolsas de valores mundiais (nas Américas, Europa e Ásia) sofreram uma queda muito significativa entre 9,5% e 12%, a pior semana desde Outubro de 2008. Para entender tal queda, é preciso retornar a 4 de março de 2020 [10], dia seguinte da já citada decisão do Fed  em baixar sua taxa básica de juros a 0,5%.

Bancos centrais como bombeiros incendiários

No dia anterior, o Fed decidiu fixar sua taxa básica em um intervalo de 1% a 1,25%, um corte de 0,50%, o maior dos últimos anos, porque até o momento baixava sua taxa não mais do que 0,25%. Face à contínua queda dos mercados de ações e, em particular, dos bancos que estão à beira da falência, o Fed decidiu reduzir novamente as taxas em 15 de Março de 2020, atingindo ainda com mais força do que em 3 de Março. Desta vez, baixou a sua taxa em 1%. Portanto, desde 15 de março, a nova taxa-base de juros do Fed está em um intervalo de 0 a 0,25%. Os bancos são, portanto, encorajados a aumentar a dívida. 

O Fed não só baixou as taxas de juro, como recomeçou a injetar uma enorme quantidade de dólares no mercado interbancário, porque os bancos, mais uma vez, não confiam uns nos outros e estão relutantes a emprestar dinheiro entre si. O presidente do Fed declarou que a instituição programara colocar mais de US$ 1 trilhão nos mercados de curto prazo nas próximas semanas, notadamente o mercado repo [11], onde já interveio massivamente entre setembro e dezembro de 2019. O mercado de acordos de recompra designa o mecanismo pelo qual os bancos financiam-se por um curto período de tempo: colocam seus títulos à venda, comprometendo-se a recomprá-los rapidamente. Por exemplo, eles depositam, por 24 horas, em recompra (ou seja, como garantia ou colateral [12] dos empréstimos que realizem) títulos do Tesouro dos EUA ou títulos corporativos com classificação AAA. Em troca, obtêm dinheiro a uma taxa de juros próxima ou igual à taxa básica estabelecida pelo Fed, que, como vimos, está próxima de 1% desde 3 de março de 2020 e de 0% desde 15 de março de 2020.

O BCE, dirigido por Christine Lagarde, cuja taxa básica é de 0%, anunciou, em 12 de Março de 2020, que iria aumentar suas aquisições de títulos financeiros privados (obrigações e produtos estruturados) e públicos (títulos soberanos). Também irá inflar o volume de créditos vantajosos concedidos aos bancos a médio e longo prazo.

Os bancos que se comprometerem a não reduzir o volume dos seus empréstimos ao setor privado (se eles não manterem suas promessas, nenhuma sanção está prevista) poderão financiar-se com o BCE a uma taxa negativa de -0,75%. Isto significa que serão remunerados e subsidiados, na medida em que contraírem empréstimos junto do BCE.

Como mencionado, no domingo, 15 de março, em pânico mais uma vez pelo que havia acontecido na semana anterior, o Fed convocou seu comitê diretor às pressas e, ignorando seu próprio calendário, reduziu sua taxa de juros para 0% (sua taxa base está na faixa de 0% a 0,25%). O Fed também anunciou que iria começar a comprar novamente produtos estruturados dos bancos, os famosos MBS (Mortgage Backed Securities) [13], que estiveram no centro da crise financeira de 2007-2008. Decidiu comprar U$ 200 bilhões de tais títulos.

Nem isso conseguiu parar as vendas massivas de ações na bolsa de valores. Todas as bolsas mundiais afundaram na segunda-feira, 16 de março de 2020. A queda em Wall Street atingiu um novo recorde diário: -12%.

Os mercados de ações continuaram a cair

“Black days”, isto é, vários crashes nas bolsas de valores, ocorreram na segunda quinzena de fevereiro e durante a primeira quinzena de março de 2020, apesar das intervenções massivas dos bancos centrais no Norte ou no Sul do planeta, no Oeste ou no Leste.

As sessões da bolsa de valores foram literalmente caóticas. Em numerosas ocasiões nas últimas semanas, elas tiveram de ser interrompidas de 15 a 30 minutos, a fim de tentar deter as vendas cada vez mais maciças e evitar a catástrofe. Essas interrupções, durante as quais as autoridades da bolsa ativaram o “circuit breaker” (segundo seu jargão), ocorreram em várias ocasiões em Wall Street, no Brasil e na Europa, ao ponto de alguns comentaristas se perguntarem porque as autoridades não fecharam as bolsas pura e simplesmente [14].

Na quinta-feira, 12 de março de 2020, um dos dias recentes mais sombrios, a queda foi impressionante: -12,28% em Paris; -10,87% em Londres; -11,43% em Frankfurt; -14,21% em Bruxelas e um recorde em Milão -16,92%! Em Nova York, Dow Jones perdeu -9,99%; Nasdaq -9,43% e o S&P500 -9,51%. As bolsas de valores da Ásia, América Latina e África também afundaram.

Na segunda-feira, 16 de março, apesar da decisão do Fed de trazer sua taxa de juros para 0%, na tentativa de agradar ao grande capital e acabar com a queda sem fundo, as venda massivas de ações continuaram: em Nova York, o S&P500 caiu 12%, a bolsa brasileira caiu 13%. As bolsas europeias voltaram a cair: Londres perdeu 4%, Paris e Frankfurt perderam mais de 5%, Milão -6%, Bruxelas -7%, Madrid -8%. Na Pacífico asiático: o Nikkel em Tóquio caiu 2,5%; as bolsas chinesas perderam entre 3 e 4%; a bolsa indiana afundou 8% e a australiana perdeu 9,5%. A derrocada continua.

Em menos de um mês, entre 17 de fevereiro e 17 de março de 2020, as bolsas de valores sofreram uma verdadeira purgação (veja o infográfico abaixo): em Nova York, o Dow Jones industrial perdeu 32% e a S&P500 das 500 maiores empresas, 24% do seu valor. Em Londres, o Footsie caiu 31%; em Frankfurt, o Dax tombou 37%! Em Bruxelas, o Bel 20 afundou 41%. O CAC 40 perdeu 36,5%. A bolsa de Madri (IBEX 35) teve uma queda de 38% e a de Lisboa (PSI20) 31,5%. A bolsa brasileira perdeu 28%, e a de Buenos Aires mais de 30%. A bolsa de valores indiana desabou 25,5%. A bolsa de valores da África do Sul (JSE) perdeu 35%. A Bolsa de Moscou, RTS,  desmoronou 40%. O BIST 100 da Turquia afundou 28%. Em Tóquio, o Nikkel perdeu 28%. Em Hong Kong, o Hang Seng caiu 21%. Em Sydney, o ASX australiano teve uma baixa de 26%. Apenas a bolsa de Xangai conseguiu ter perdas limitadas: -7 %. Se a bolsa de Xangai está se saindo melhor do que qualquer outra bolsa do mundo, é graças ao apoio prestado, sob ordens do governo, pelas empresas estatais chinesas e fundos públicos. Pequim determinou que eles comprassem sistematicamente ações na bolsa de valores em meio à crise do coronavírus enquanto outros vendiam.

Em resumo, entre 17 de fevereiro e 17 de março, todas as bolsas de valores do mundo sofreram perdas muito significativas, comparáveis ou superiores às ocorridas durante grandes crises nas bolsas, tais como a 1929, 1987 e 2008.

Infográfico: Evolução em porcentagem das principais bolsas do planeta entre 17 de fevereiro e 17 de março de 2020

Fonte : Cálculo do autor à partir da CNN e de Boursorama

Quem se livra em massa do estoque das ações?

Os principais mercados de ações são dominados por uma centena de grandes grupos privados, seus acionistas fazem parte do 1%, ou mesmo do 0,1% mais ricos. Estes grandes grupos privados desempenham papel importante no desencadeamento da crise das bolsas e na sua extensão.

Dentre eles, encontram-se cerca de trinta grandes bancos; uma dezena de grandes fundos de investimento, entre os quais, BlackRock, Vanguard, State Street e Pimco desempenham um papel chave; os GAAFs devem ser adicionados  (Google, Apple, Amazon, Facebook); grandes conglomerados industriais; uma pequena dezena de grandes empresas petrolíferas; e alguns grandes fundos de pensão.

Este punhado de grandes capitalistas e as operações de suas empresas estão altamente interligados. Há sistematicamente participações cruzadas, isto é, um banco pode ser acionista de empresas industriais e vice-versa, bem como fundos de investimento, por exemplo BlackRock, detêm participações em todas as grandes empresas privadas. No final de fevereiro de 2020, eles perceberam que a festa estava prestes a acabar e que era o momento de angariar a diferença entre o que pagaram durante os últimos dois ou três anos para comprar ações e o pico da bolsa de valores no início de 2020. Colocaram suas ações à venda e, no início, obtiveram um preço muito bom. Em efeito manada, todos os principais acionistas e atores dos mercados financeiros seguiram os grandes conglomerados. Colocaram ações à venda e lograram ótimos lucros antes que a queda dos preços caísse abaixo do nível pré-bolha. Entrementes, os maiores e mais rápidos conseguiram ganhos consideráveis.

O importante para um grande acionista é vender quando o preço ainda não caiu significativamente. Para vender o máximo e o mais rápido possível, eles usam softwares programados para ativar tais vendas assim que os preços atingem certo patamar. Deste modo, dias com quedas consideráveis são seguidos de recuperação: aqueles que venderam na véspera do início da queda podem pensar que vale a pena recomprar ações a um preço 5%, 10% ou até 20% inferior ao preço que tinham vendido no início da sessão do dia anterior.

Isto explica a sucessão perene de “black days”. Apesar de recuperações  momentâneas, a tendência geral é uma verdadeira purga com seus efeitos laxativos. A bolha da bolsa explode diante dos nossos próprios olhos.

A derrocada dos mercados de ações tomou  uma magnitude tal que, no final, os grandes grupos que lançaram o processo de vendas massivas diminuíram seus ativos. Talvez tenham conseguido ganhos, ao especular para baixo e depois para cima, mas nesta estágio da crise o valor total dos seus ativos caiu drasticamente. O Financial Times fornece uma estimativa quanto aos três maiores fundos de investimento – BlackRock, Vanguard e State Street –, segundo a qual o valor de mercado dos ativos teria caído U$ 2,8 trilhões em pouco menos de um mês [15]. U$ 2,8 trilhões é 10% a mais do que o PIB anual da França. Segundo o jornal, enquanto no início do ano os ativos detidos pela BlackRock tinham atingido o valor astronômico de U$ 7,4 trilhões, a queda das bolsas os reduziu em U$ 1,4 trilhões. Além disso, o valor das ações da BlackRock caiu 28% em um mês. Os ativos da Vanguard tinham atingido US$ 6,2 trilhões sofreram uma redução de US$ 800 bilhões entre fevereiro e 15 de março de 2020.

Confira o artigo original aqui.


NOTAS:

[1] Ver https://www.cadtm.org/Non-le-coronavirus-n-est-pas-le-responsable-de-la-chute-des-cours-boursiers

[2] Ver https://thenextrecession.wordpress.com/

[3] Verhttps://fr.wikipedia.org/wiki/Fran%C3%A7ois_Chesnais

[3] Ver http://hussonet.free.fr/

[4] Ver https://www.cadtm.org/Tout-va-tres-bien-madame-la (a partir de Novembro de 2017); https://www.cadtm.org/Tot-ou-tard-il-y-aura-une-nouvelle-crise-financiere (a partir de Abril de 2018)

[5] Ver https://www.cadtm.org/La-montagne-de-dettes-privees-des-entreprises-sera-au-coeur-de-la-prochaine  (Publicado em Abril de 2019

[6] Ver https://www.cadtm.org/Panique-a-la-Reserve-Federale-et-retour-du-Credit-Crunch-sur-un-ocean-de-dettes  (publicado em 25 de setembro de 2019); https://www.cadtm.org/Retour-sur-la-panique-a-la-Reserve-federale-en-septembre-2019-et-les-solutions  (publicado em 11 de outubro de 2019)

[7] Ver o meu artigo escrito em Dezembro de 2019 e publicado em Janeiro de 2020: https://www.cadtm.org/La-crise-de-la-politique-des-banques-centrales-dans-la-crise-globale; precedido por outro, de Março de 2019: https://www.cadtm.org/La-crise-economique-et-les-banques-centrales.

[8] Ver Jean-Marie Harribey, “La baudruche du capital fictif, lecture du Capital fictif de Cédric Durand”, Les Possibles, N° 6 – Printemps 2015. Disponível em: https://france.attac.org/nos-publications/les-possibles/numero-6-printemps-2015/debats/article/la-baudruche-du-capital-fictif

[9] Ver https://www.cadtm.org/Non-le-coronavirus-n-est-pas-le-responsable-de-la-chute-des-cours-boursiers

[10] Repo é a contração usada nos EUA para o termo “Sale and Repurchase Agreement”, ou acordo de venda ou resgate, que são instrumentos financeiros importantes do mercado monetário. No Brasil fala-se mercado de acordos de recompra [N.T]

[11] Colateral é um ativo fornecido pelo devedor ao credor como garantia de pagamento [N.T]

[12] O MBS refere-se a um investimento semelhante a um título de empréstimos à habitação adquiridos junto aos bancos que os emitiram. [N.T]. Conferir em: https://www.investopedia.com/terms/m/mbs.asp<acessado em 20/03/2020>.

[13] Ver: https://www.liberation.fr/france/2020/03/17/l-erreur-fondamentale-a-ete-de-ne-pas-fermer-les-bourses_1781954

[14] Financial Times, “World’s three largest fund houses shed $2,8tn of assets” (Publicado em 15 de março de 2020) 

[15] Disponível em: https://www.ft.com/content/438854a8-63b0-11ea-a6cd-df28cc3c6a68

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