O Coronavírus provocou uma tempestade perfeita de nacionalismo e especulação financeira

Yanis Varoufakis

*** Esta é uma tradução livre e não autorizada do texto originalmente divulgado no jornal The Guardian, no dia 8 de março de 2020 (você pode acessar o original aqui). Circulação para fins estritamente acadêmicos. [This is an unofficial and unauthorized translation, made strictly for academic purposes. Do not circulate further].

Imagem: Pixabay

Poucas oportunidades foram tão boas em combinar as forças do nacionalismo e da especulação financeira quanto a que vemos hoje com o surgimento do Covid-19, conhecido como coronavírus. Quando o Covid-19 se espalhou da China para a Itália, até os europeus que normalmente apreciavam as fronteiras abertas se uniram aos apelos ensurdecedores para acabar com a liberdade de circulação nas fronteiras nacionais da Europa – uma demanda antiga dos nacionalistas. Enquanto isso, os financistas que especulam com a dívida pública estão realizando uma clássica fuga de títulos do governo italiano para o alemão, em busca da segurança financeira que somente o mais poderoso país do continente poderia oferecer durante qualquer crise. Como se tentasse nos lembrar da grande contradição dos nossos tempos, o Covid-19 parece estar iluminando gloriosamente a liberdade do dinheiro para transcender um universo financeiro sem fronteiras, enquanto os seres humanos permanecem, como sempre, cercados.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump combina seu habitual apelo pelo recrudescimento das fronteiras com uma nova instrução para os financistas: ao invés de seguirem o instinto natural de procurar refúgio nos mercados de títulos mais calmos e seguros, “comprem ações durante a queda!” em Wall Street. Muita coisa dependerá dos financistas acreditarem em Trump, ainda mais em um ano de eleições. Se os especuladores confiarem no presidente norteamericano, Wall Street se recuperará rapidamente, mesmo antes da epidemia desaparecer. As forças da financeirização xenofóbica terão então triunfado e os progressistas dos EUA enfrentarão uma luta árdua em todas as frentes políticas. Quanto à União Europeia, as elites dominantes darão um suspiro aliviado por terem evitado uma nova depressão e voltarão a administrar da melhor maneira possível a estagnação econômica dos últimos tempos, tingida, dessa vez, com uma grande dose adicional de xenofobia, reforçada pelo coronavírus.

Wall Street seguirá o conselho de Trump de “comprar ações na queda”? Por enquanto, os grandes players estão pensando de duas formas. A queda no mercado de ações não os preocupa tanto. Sua preocupação era a de que a recente alta do mercado teria relação com o aumento progressivo das dívidas suspeitas e que o Covid-19 pode ter furado uma bolha que estouraria de qualquer maneira. Da mesma forma, na Europa, o pior espectro pairando sobre as cabeças dos investidores é que as grandes corporações, que dependem há muito tempo de dinheiro do Banco Central Europeu, podem ser rebaixadas de classificação e definidas por ações de baixo valor – especialmente em tempos de demanda doméstica estagnada e um mercado chinês de importação em colapso.

Inspirando-se nas consequências do crash de 2008 e da crise da zona do euro que se seguiu, os especuladores otimistas olham para os bancos centrais, principalmente o Fed e o BCE, para fazer, mais uma vez, “o que for preciso” para revitalizar suas fortunas. Duas perguntas tiram seu sono: os bancos centrais irão atender à sua demanda? E se o fizerem, será suficiente?

É fácil de responder a primeira pergunta: os governos são impotentes em ambos os lados do Atlântico. Nos Estados Unidos, o déficit orçamentário federal já está em uma alta histórica, especialmente no contexto de um mercado de trabalho estrangulado, enquanto a zona do euro permanece na camisa-de-força de seu arrocho fiscal. Portanto, os bancos centrais serão forçados, gostem ou não, a extrapolar os velhos limites. Temos visto anúncios de taxas de juros mais baixas, mesmo de compras semi-diretas, em estilo japonês, de dívidas públicas e privadas pelas autoridades monetárias.

No entanto, será suficiente para os bancos centrais jogarem mais dinheiro nos mercados monetários infectados com Covid-19? Será que a economia conseguirá voltar para onde estava há um mês se liquidez suficiente for injetada no sistema? Ou será semelhante a um vagaroso furo que exige um aumento de injeções para permanecer inflado? Além disso, será que o novo muro de dinheiro público conseguirá conter o aumento da xenofobia? A triste resposta para a última pergunta também é instrutiva sobre a questão econômica.

Quando uma fronteira é fechada, ela não abre novamente com facilidade, mesmo que as condições que causaram seu fechamento sejam amplamente revertidas. Esta é uma lição da experiência recente da Europa. Tomemos por exemplo a Áustria, que fechou sua fronteira com a Itália após o aumento da chegada de refugiados no verão de 2015. Anos após a onda de refugiados desaparecer, as fronteiras permaneceram fechadas. Algo similar aconteceu com as fronteiras ao longo dos Balcãs Ocidentais. E o aumento da liquidez do banco central acarretará uma melhora dos efeitos do Covid-19 na economia? Para responder, precisamos nos lembrar do que aconteceu após o crash de 2008.

Houve duas respostas à crise de 2008 que salvaram o capitalismo do colapso total: a injeção gigantesca de liquidez na economia pelos bancos centrais, sobretudo pelo Fed; e a China, cujo governo se encarregou intencionalmente de construir a maior bolha de crédito privado da história para substituir a demanda perdida da exportação por um aumento estupendo de investimentos. As intervenções do Fed e da China conseguiram reaquecer as finanças globais e colocaram as bolsas de valores no caminho de seu maior rompante de crescimento. No entanto, o mundo não voltou ao estado anterior a 2008.

Antes de 2008, Wall Street desempenhou um papel crucial na reciclagem de superávits fora dos EUA, que eram a repercussão dos déficits americanos no financiamento de investimentos globais. Depois de 2008, a reaquecida Wall Street não pôde executar essa tarefa, canalizando grande parte da liquidez não para investimento em capital fixo, mas para a reaquisições de ações e compras de novos ativos. Como resultado, a economia pós-2008 é caracterizada pela poupança exceder o investimento em bens de capital. Como a poupança é a oferta do dinheiro e o investimento, sua demanda, o excesso da oferta de dinheiro, explica as taxas de juros permanentemente baixas ou negativas. Isto também explica a redução dos salários em um cenário de aumento dos preços dos ativos, causando desigualdade insustentável e produzindo os triunfos políticos do nacionalismo xenofóbico.

Exatamente da mesma maneira que o aumento da liquidez pós-2008 falhou em reequilibrar a poupança e o investimento na âmbito global, qualquer “flexibilização” monetária para combater os efeitos negativos do Covid-19 falhará em retornar a economia global ao seu estado anterior a fevereiro. É claro que, como aconteceu depois de 2008, os especuladores vão enriquecer e as forças nacionalistas se aproveitar ao máximo do descontentamento que virá em seguida.

Veja o texto original aqui.

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